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25
Out

DNPJ: que rumo?

Escrito por Conteúdos CJ on 25 Outubro 2009.

O Pe. Rui Alberto, salesiano e conhecido autor de livros sobre Jovens e Pastoral Juvenil, escreveu um interessante texto/reflexão sobre o futuro da Pastoral Juvenil em Portugal, texto esse que te convidamos a ler em seguida.

O Pe. Vasco Pedrinho, actual responsável pelo DNPJ ( Departamento Nacional de Pastoral Juvenil) renunciou ao cargo de director do DNPJ. Enquanto se encontra uma alternativa (ou se adia a decisão), acho que faz sentido pensar o que se espera do DNPJ, neste contexto eclesial e social. Em vez de falar, aos cochichos nos bastidores, penso que pode ser mais maduro e eclesial pensar alto e publicar as ideias sobre algumas questões importantes para a pastoral de jovens em Portugal.

Peguei nas Bases para a Pastoral Juvenil (2002) e gostei de as reler. Se calhar há um qualquer documento jurídico-estatutário a dizer o que se quer do DNPJ e do seu responsável.

Bases 24
Mas convido-vos a ler o que dizem as Bases no nº 24.

24. No âmbito dos Serviços da CEP, o Departamento Nacional da Pastoral Juvenil tem por missão fomentar, a nível nacional, o encontro das diversas instituições eclesiais de pastoral da juventude, assegurando entre elas a melhor articulação e coordenação; estudar formas adequadas de evangelizar e educar os jovens na fé; proporcionar itinerários de formação para os jovens e seus educadores; apoiar e colaborar com os serviços diocesanos e com os diferentes movimentos; promover a unidade entre eles, através de iniciativas comuns às dioceses e movimentos apostólicos juvenis; responder, no âmbito da pastoral juvenil, às solicitações de participação e representatividade nacional e internacional.
O Departamento Nacional tem um Director, padre ou leigo, nomeado pela CEP. No caso de o Director ser um leigo, a equipa terá um Assistente Nacional, também nomeado pela CEP.
Para a reflexão alargada dos problemas e projectos da Pastoral Juvenil é constituído um Conselho Nacional, que integrará representantes dos Serviços Diocesanos, Movimentos, Institutos e Associações Juvenis. O Conselho é um fórum privilegiado de debate, estudo, actualização dos anseios dos jovens, dos seus ambientes e das propostas pastorais mais adequadas para promover a comunhão de diversidades, o aprofundamento de conteúdos e acções concretas relativos aos jovens.

Eu leio esse número numa lógica de subsidiariedade. Isto é, não espero que seja o DNPJ a “salvar” magicamente, de cima para baixo, a pastoral juvenil em Portugal. A pastoral juvenil (e todas as outras) são primeiramente feitas cá na base. E as estruturas eclesiais de governo, coordenação e animação, seja a que nível for, aparecem numa lógica de subsidiariedade, isto é, para fazer o que não pode ser feito pela base.

O DNPJ tem por missão

“fomentar, a nível nacional, o encontro das diversas instituições eclesiais de pastoral da juventude, assegurando entre elas a melhor articulação e coordenação...”
É uma das áreas onde se têm conseguido resultados interessantes e uma boa progressão. É importante continuar a ser ponte, a promover uma cultura de colaboração e diálogo.

 

Estudar formas adequadas de evangelizar e educar os jovens na fé;
Esta dimensão de estudo, de pensamento, de inovação e investigação é que tem estado mais apagada. Bem sei que é difícil numa igreja com poucos recursos como a nossa ter grande produção teórica mas precisamente por isso é que um serviço como o DNPJ pode ser importante ao promover o encontro dos estudiosos, ao estimular o pensamento, ao disseminar resultados e intuições inovadoras.
Proporcionar itinerários de formação para os jovens e seus educadores;
Não subscrevo muito este tipo de objectivos porque considero que não corresponderia à missão de um organismo da CEP (= Conferência Episcopal Portuguesa) o desenvolvimento de propostas concretas (isto aplica-se quer ao DNPJ com os tais itinerários quer ao SNEC (= Secretariado Nacional de Educação Cristã) e aos famigerados materiais catequéticos que não há maneira de verem a luz do dia). Mas a verdade é que o DNPJ conseguiu apadrinhar e divulgar dois itinerários: o “+10” e o “Projecto GPS”
Apoiar e colaborar com os serviços diocesanos e com os diferentes movimentos;
Para esta tarefa é imprescindível uma disponibilidade e competência adequadas. É minha opinião que a maioria das estruturas diocesanas de pastoral juvenil são muito frágeis. Ter uma estrutura nacional competente e disponível seria útil para apoiar as dioceses com mais dificuldades a darem um salto de qualidade.

Promover a unidade entre eles [os serviços diocesanos e com os diferentes movimentos], através de iniciativas comuns às dioceses e movimentos apostólicos juvenis;
Esta é a agenda “clássica” do DNPJ: a organização e coordenação de iniciativas comuns. Num certo sentido parece-me das tarefas menos interessantes. Se calhar porque nos últimos anos temos sido “mal habituados” a uma qualidade mais que adequada. Tendemos a considerar eventos como o Fátima Jovem, o festival nacional ou a participação nas JMJ como “business as usual” porque têm funcionado razoavelmente bem.
Responder, no âmbito da pastoral juvenil, às solicitações de participação e representatividade nacional e internacional
Esta última tarefa responde às tarefas mais institucionais de representação.

Algumas urgências
Gostava de partilhar convosco algumas opiniões sobre o que deveria-poderia ser a agenda do DNPJ nos próximos tempos. É apenas uma opinião de uma pessoa que se interessa por isto da pastoral juvenil. É um pouco mais séria do que um “bitaite” mas não nasce de um estudo científico aprimorado.

1. Disponibilidade e competência

O responsável do DNPJ deve ter a competência mínima adequada ao quadro e uma disponibilidade full-time. Dizer, por actos, que a gestão, a nível de CEP, destas questões da pastoral de jovens se pode fazer com as sobras de tempo e de disponibilidade pastoral de alguém, é ignorar atrozmente os desafios que enfrenta a evangelização dos jovens.

Há que definir um bom modelo de acessoramento para o responsável do DNPJ. O modelo anterior suponha duas equipas de apoio. Uma equipa executiva que levava os aspectos práticos do DNPJ e apoiava nos eventos organizados pelo DNPJ e uma equipa pastoral que apoiava na reflexão pastoral. Penso que é uma fórmula que pode funcionar. Mas admito que sou suspeito por ter integrado uma dessas equipas.


2. Continuar as boas práticas
Há algumas tarefas a que o DNPJ já nos habitou a ter bons desempenhos. Haveria que não descair:

No esforço de dar vida e qualidade ao conselho nacional de pastoral juvenil;
No empenho em criar uma cultura de participação e colaboração;
Na qualidade organizativa dos eventos que promove;
Na boa articulação com todas as instâncias eclesiais que trabalham com jovens.


3. Apoiar a formação e qualificação dos responsáveis e equipas diocesanas de PJ

O DNPJ, pelo princípio de subsidiariedade, poderia ter um papel mais activo na qualificação dos responsáveis e equipas diocesanas. É urgente ultrapassar a alta velocidade de rotação de responsáveis em algumas dioceses. É urgente dar às pessoas envolvidas as bases mínimas para se poderem orientar no contexto diocesano.


 
4. Tirar os corolários do modelo de iniciação cristã

Formalmente o DNPJ está integrado no Secretariado do apostolado dos leigos e família. Isso denota, de algum modo, a convicção que os “jovens” são uma unidade orgânica que, depois da catequese da infância e adolescência, se identifica com a Igreja e com a sua missão. Pois... uma atenção mínima mostra facilmente como as coisas não se passam bem assim.

Vários documentos dos bispos portugueses vão divulgando o modelo da iniciação cristã. É um modelo que reconhece que a caminhada até à fé adulta é longa e exige etapas diferenciadas.

Uma das tarefas que deveria entrar em agenda é a necessidade de diferenciar pastoralmente a pastoral juvenil. Há muitos jovens que são completamente triturados pela sociedade alienada e manipuladora em que vivemos e que nunca tiveram a hipótese de contactar com os sinais de presença do Reino que a Igreja faz. Há outros que não tiveram acesso ao primeiro anúncio e que ainda não se converteram a Cristo e à sua proposta de vida.


5. Ser o interface da CEP com o mundo dos jovens

Um dos papéis do DNPJ deveria ser o de trazer para a CEP o mundo dos jovens, as suas alegrias e esperanças, angústias e desafios. Dos jovens todos e não apenas daqueles que se fazem presentes nos nossos eventos ou nas nossas celebrações. E deveria aportar à CEP o sentir e o agir de todos os que em Portugal fazem pastoral com os jovens.

Deveria ser um interface bidireccional, trazendo para todos os que fazem pastoral juvenil o sentir da CEP, os seus documentos, as suas propostas e prioridades.


6. Estimular a inovação

Todos sentimos que a PJ está numa situação difícil em Portugal. Os desafios parecem mais fortes que os recursos. Essa situação só se pode alterar com o cultivo de uma postura de generosa criatividade e inovação. Sendo certo que muitas das estruturas diocesanas estão muito ocupadas em questões de gestão corrente poderia ser um serviço útil se o DNPJ se assumisse como um factor de inovação não só promovendo-divulgando iniciativas com elevado potencial pastoral mas acima de tudo criando uma cultura que valoriza a inovação e a criatividade na fidelidade ao Evangelho.

Disclaimer serio-cómico
Ao escrever isto limito-me apenas a pensar alto e a estimular o pensamento de quem me leia e, eventualmente, o diálogo.
Por tantas razões, não sou “candidato” a cargo nenhum. Lol. E a mais óbvia de todas é a falta de disponibilidade. Os meus compromissos com a pastoral de jovens em Portugal levam-me no futuro mais próximo a outros compromissos.
Este texto não serve para “meter cunha” a ninguém.
Aliás, o texto pretende é reflectir sobre os processos e as tarefas, antes de começar o diálogo sobre as personalidades.

Rui Alberto sdb
Edições Salesianas

DNPJ: que rumo?